quarta-feira, 15 de abril de 2009

Escape

Escape

Não era como dizer apenas: minha vida não depende disso! De fato, todas as decisões se tornavam cada vez mais mandatórias, cheias de si, opressoras. Quanto ao sentimento que lhe ocupava? Uma louca vontade de cantar.

Cantando percebia que aquele não era seu destino... Então qual seria? Essa pergunta lhe inundava os minutos, as horas e os dias. Enquanto se afogava na busca pela resposta, via a sua vida, incansavelmente, gotejar ralo abaixo.

Fazia questão de manter-se atenta a todas as mudanças de maré que pudessem se aproximar. Desta forma, pensava, os outros não a incomodariam.

Sabia que o caminho da entrega era o menos trabalhoso. Já havia visto ondas como esta levando os que lhe antecederam. Sabia que aquele não era seu destino.

Contudo, cada vez que aquele mar de tristeza lhe seduzia, ainda tímido, no horizonte, não tinha dúvidas: seria imprescindível chorar.

Observando-se, à beira da situação, percebeu que algo não era mais igual. A melancolia talvez parecesse a mesma, mas não era. A apatia já havia lhe aparecido de outras vezes, mas não desta forma. E algo fundamental tinha mudado drasticamente: havia perdido o dom do choro.

Curioso isso não? Sem saber se de forma positiva ou negativa, percebia que, nos recentes maremotos emocionais, seu pranto havia se transformado em canto. E, apesar da melodia lhe aplacar a angústia de forma considerável, sentia falta do poder das lágrimas.

No fundo sabia que, por mais poderosa que fosse a música, nada lhe faria escoar seu sofrimento como uma inundação daquelas preciosas gotas salgadas. O mar de angústia que tinha dentro de si, por não transbordar para o exterior, lhe ocupava de tal forma que transformava até mesmo a menor das tarefas em um trabalho hercúleo.

Pelas secas janelas de sua alma observava que aqueles que a rodeavam não a compreendiam. Alguns achavam que era pessoal. Ela achava tão cansativo explicar-lhes que acabava por deixá-los com essa impressão errônea.

Tem sido capaz de perceber que os tais períodos de seca não tem sido em vão. Parece que vem ocorrendo uma condensação de seus pensamentos. Pensa que talvez o deserto que vem lhe ocupando não seja tão dramático. Talvez tenha escolhido ver a vida sem o embaçamento que a água traz. Não fica mais fácil. Talvez mais claro.

Já sente a iminência da chuva. Sente os ventos de mudança. Observa algumas nuvens prontas a desabar. As vezes é surpreendida por uma gota ou outra. O calor que traz a iminência dessa tempestade é por vezes insuportável. Ela aguarda.

Quando, amanhã ou depois, seus vendavais e temporais desabarem, deseja estar atenta e quem sabe até tomar um banho de chuva. Disseram que no fim há bonança. Mas isso já não importa.

Hoje em dia deseja ansiosamente o dilúvio inteiro. Raios e trovões serão bem vindos. E mesmo que o sol volte a aparecer e a secar o que a rodeia, espera que isso não ofusque toda vida que se fez da bendita água.

Por enquanto só é capaz de esperar e desejar e sentir e observar e aguardar. Faz isso cantando. Canta músicas de tristeza e felicidade, para não se esquecer de ninguém. Faz isso olhando pro céu e costuma ver passarinhos voando. Lhe disseram que esses sabem quando e onde chove ou faz sol. E cantam! Talvez junte-se a eles qualquer dia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário