Reza a lenda que, em algum tempo e lugar imprecisos, se esconde um ser enigmático e simples.
Dizem que esta figura é capaz de ver além do que existe.
É capaz de ver os seus pensamentos, através dos cabelos.
Desvenda os encantos daqueles com quem cruza apenas através de um sorriso.
Mas seu grande dom se esconde na capacidade de ver apenas qualidades nos olhares dos afortunados que a encontram.
Observa sem ser vista as passagens dos transeuntes.
Ao vê-los ir tenta premeditar se voltarão algum dia.
Os que regressam, quantifica o tempo que serão capazes de permanecer.
E sua grande ocupação é perceber esse eterno ir e vir comum nos seres humanos, que nunca chegam a lugar algum.
Dizem que seu paladar é muito apurado e só se sente realmente satisfeita ao ser alimentada de alegria.
Sobre seu olfato já foi comparado ao de uma cobra, por ser capaz de provar o ar ao seu redor. Sabe dizer, sem hesitar, se o ambiente está envolto em amabilidade ou se deve se manter em apnéia, para não se deixar inebriar por ares traiçoeiros.
Sua visão, no entanto, é por vezes falha. Nem sempre sabe ao certo o que vê. Não enxerga muito bem ao se aproximar das situações e, portanto, prefere assistir tudo à distância.
Quando está em situações de perigo, costuma disparar um mecanismo delirante e, então, se acalma.
Ao se sentir ameaçada sua respiração se restringe. E, apenas ao entrar num tipo de estado de delirium é capaz de retornar seu ritmo respiratório normal.
Os que são capazes de imaginar o tal ser mítico, costumam descrever um estado pleno de alegria quando este lhes permite ser visto.
Mas parece que, por mais que tentem descrever este estado passado pelo encontro com a criatura, as letras não são suficientes nem mesmo para a melhor das discrições.
Não é um ser literal.
Parece que a tal figura não é capaz de viver entre outros seres, por se cansar rapidamente mesmo com o menor dos contatos com os outros.
Acontece que a tal lenda vive em outro ritmo, outro compasso. Seu coração bate mais rápido, sua respiração é constantemente ofegante, suas sinapses não podem ser medidas no tempo.
Por não entender a maneira como vivemos é facilmente enganada. Desta forma, como meio de preservar a sua espécie, restringe ao máximo o contato.
Seu senso de direção também não é o melhor, por isso costuma usar as pegadas de outros animais para se guiar por entre os perigos que o mundo ao seu redor lhe guarda.
Apesar de todos os cuidados que toma a poderosa criatura costuma estar constantemente machucada. Não usa proteção em seus pés. Está exposta a espinhos, galhos, pedras e cacos.
Muitos se perguntam por que não arruma sapatos que lhe protejam de tais feridas. Os maiores conhecedores afirmam que a força de sua liberdade se esconde em seus pés. Calçá-la seria o mesmo que aprisioná-la numa jaula.
De maneira geral, todos que já estiveram com a mitológica criatura afirmam que não é recomendável tentar afrontá-la, muito menos capturá-la. E mais ainda, só são capazes de desfrutar das benesses que esse ser pode trazer aqueles que a deixam em paz para se aproximar quando melhor se sentir, apenas aqueles que a deixam para lá.
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